O SEPULTAMENTO DO DICIONÁRIO

Poema de Israel Guerra

Assim diz o estudante,

Ainda infante:

Estudar pra quê?

Se eu já sei até ler,

E tenho computador

Não necessito de professor!

Está bem, mas um pouco de conhecimento,

Será bom para reforçar seus argumentos.

Estamos aqui na minha última aula tão inglória,

No ensejo lhes falo de minha humilde trajetória

Nesse período lhes conto um pouco de história.

Meus alunos, nossa aula será sobre antiguidade:

Mas para tanto é preciso alguma “musicalidade”.

Como vocês me dizem: “aquele som da pesada”,

Aquele sem rumo que só se ouve uma batucada.

Vamos ao que não vos interessa minha moçada:

Houve um velho livro chamado de DICIONÁRIO,

O outrora conhecido, o famoso, “pai dos burros”.

Quando as pessoas “sábias” estavam aos urros,

Era da ignorância o verdadeiro “confessionário”.

A gente o buscava para uma palavra examinar,

Mas, quase não se vê mais; ele foi substituído,

É suficiente, num passe de mágica, dum clicar;

Rápido vir as palavras para um “sábio” ajudar.

Estudar o quê, tudo num click está constituído,

E o “sábio”, pela preguiça está sendo possuído.

Cada vez mais, vai sendo por todos esquecido,

Para a geração nova, um objeto desconhecido.

O DICIONÁRIO num museu será depositado,

E como história algo dele ainda será contado,

Ali permanecerá para sempre bem guardado,

Esperando até que dali um dia seja chamado.

Era livro de palavras antigas, da pré-história,

Não havia ainda no ensino toda essa escória,

E numa aula da saudade, ele com pesar dirá:

Filho, esse é o livro que você não conheceu;

Desprezado antes do tempo, aqui não voltará,

Nele se pesquisava, mas agora já morreu!

Quero seguir mais pouco com meu ensino,

Antes que alunos, por vocês eu seja vaiado,

Isso com certeza me deixará envergonhado.

Mas, estou conformado com o meu destino.

Com o salário que ganhava vivia atribulado;

Vocês não sabem como é difícil ser professor,

Para suportar a ignorância é preciso ser ator.

Perdoem-me dirigir-me a todos vocês assim,

Mas minha franqueza, eu sei não é tão ruim.

Encerro este trecho do meu triste passado,

Crendo: de negligente não serei chamado! 

 

Assim diz o estudante,

Ainda infante:

Estudar o quê?

Se na net eu me ligo,

No notebook eu me abrigo,

Eu não sou do tempo antigo!

E tenho computador,

Não necessito de professor!

Está bem, mas um pouco de conhecimento,

Será bom para reforçar seus argumentos.

Olha, cara temos coisa muito mais moderna,

Nem vá pensando que tudo é uma baderna;

O velho “pai dos burros” está muito enfermo,

Numa sala da casa há muito foi abandonado,

Esperando a hora de sua vida porem a termo.

Pobre coitado, cada dia se sente desprezado,

Veja em que estado vive, todo empoeirado,

Usado no tempo das cavernas de antanho,

Se ele voltar não será do mesmo tamanho,

Em lembrança se tornará mui brevemente,

Sofrerei a tortura desse tempo inclemente,

E os amargos dias do estado de indigência,

Todavia não espero de vocês a indulgencia.

No passado pelos estudiosos fui tão querido,

Para mim ninguém mais olha, fui preterido.

Queridos alunos, muito do que lhes ensinei,

Foi com ele que aprendi tudo que ministrei.

Não me envergonho de quanto o procurei,

Em suas ricas páginas sempre me abeberei;

Hoje participo do sentimento desse amigo,

O DICIONÁRIO que ainda está comigo,

Com saudade lembra a quantos ensinou,

Contudo, somente o desprezo lhe restou,

E dele não se ouve mesmo pequena fala!

Em colégio, ou na faculdade, ou outra ala,

De sábio virou burro, seu uso é jumentice,

Pois não se precisa de nenhuma preleção,

Se você insistir nisso será pura cavalice.

Mas, veja onde está indo nossa educação.

Mediocridade e ignorância estão com tudo,

E cada vez mais elas ameaçam o estudo,

Se o “sábio” e o “inteligente” é lembrado,

Basta para isso ter ele algum “mestrado”.

O que interessa é você ter um “canudo”,

Diploma de “sábio” e “ilustre endereçado”,

Mas, jamais se chegará sem esse escudo.

No tempo quando tinha valor autodidata,

Ele hoje não tem valor em qualquer data,

Pois aprender e não ter um comprovante,

Para os “sábios” é verdadeiro agravante;  

É a lei, cumpra-se: por isso eu vos peço,

E com uma aflita tristeza eu me despeço.

Pena só fui útil enquanto DICIONÁRIO,

  Mas agora é a vez do tal de “inventário”.

A vocês deixarei meu pobre comentário.

 

Assim diz o estudante,

Ainda infante:

Aprender o quê?

Só preciso de um momento,

Para enunciar o argumento,

Pois eu não sou jumento!

Tenho computador,

Não preciso de professor!

Está bem, mas um pouco de conhecimento,

Será bom para reforçar seus argumentos.

Saibam que leitura é fonte de conhecimento,

Sem ela você será mesmo esse tal jumento,

Se seu “DICIONÁRIO” está todo rasgado,

Pela poderosa “dona” “net” foi desbancado,

Em meio a tudo isso você é o único culpado;

Pois por você faz tempo que foi aposentado,

As folhas anêmicas, pelo tempo amareladas,

Sua procura não lhe interessa, ela arrefeceu,

Nas bibliotecas já não estão mais atreladas,

A tecnologia a ele de repente envelheceu;

Sua “filha” mais velha, “senhora” GRAMÁTICA,

De repente foi mudada de forma enigmática,

Tornando o estudo numa moda pragmática.

Também a “prima” desta, “dona” TABUADA,

Sem utilidade, muito cedo já foi abandonada,

Na calculadora a soma está toda amontoada,

Embora levem à burrice a alegre criançada;

Não é preciso estudar, pois a sabatina já era,

Agora se vive numa nova e virtual atmosfera.

O medo da “bendita” “senhora” a Palmatória,

Hoje no museu, é apenas símbolo de história.

Pois qualquer um assunto é na modernidade,

Assim nos lares, na escola e na comunidade.

É só pesquisar lá na moderníssima internet,

Dispensam-se as boas aulas da dona Anete,

Elas tornaram-se de pouquíssima “validade”,

A da “dona” Nete tem muito mais “qualidade”.

Você não se iluda são muitas as banalidades,

As aulas de sexo do “bigbrother” famigerado,

Dilapidando toda moral das famílias honestas,

Mostrando apenas a luxúria dos depravados,

Num festim de Baco, parecem estar em festa;

Mas do bem e da honestidade são alienados;

É essa a aula de muitos jovens, infelizmente,

Um apurado recheio de danosa vulgaridade,

Todo esse recheio requintado de imoralidade,

Fazem dos meus alunos moços prepotentes;

Desculpem-me se vos pareço muito exigente,

Se por razão dessa “didática” fui inclemente,

Mas, meu desejo era fazer de vocês gente,

Não consegui, ainda assim estou contente,

Meu adeus alunos, aqui silencia o vidente,

Que olhava só o que estava bem à frente!

 

Assim diz o estudante,

Ainda infante:

Fazer conta pra quê?

Se eu tenho calculadora,

Ela é minha ajudadora,

É também minha defensora,

E tenho computador,

Não preciso de professor!

Está bem, mas um pouco de conhecimento,

Será bom para reforçar seus argumentos.

Ó queridos, vocês estão vendo aquela caveira,

Ali pertinho daquele enorme pé de cajazeira?

É a do “DICIONÁRIO”, é o resto dele, a arcada,

O computador é quem está na arquibancada;

A internet dispensa a presença da professora,

Mesmo a dedicadíssima senhora, a Aldenora;

Hoje qualquer tipo de aula é uma “desgrama”,

Mormente quando há um tal de pentagrama.

Na aritmética, “inventaram”, a raiz quadrada;

Meu professor eu só tenho visto raiz redonda,

Diz a “sabida” da escola isso é página virada,

Se alguma existe, deve estar fazendo ronda.

Também o antigo professor de História Geral,

Insistindo na sua aula foi chamado de animal;

Ora, ora, a mestra que ensinava Caligrafia,

É vaiada por querer ensinar com maestria,

O nosso diplomado professor de Geografia,

Mesmo o dedicadíssimo mestre de Filosofia,

Não resistiu aos apupos dessa “diplomacia”,

E desesperado a escola deixou em agonia.

Nem mesmo essa tal de nova matemática,

Que já muito avançadaé na era quântica,

Para alguns é ainda bastante enigmática,

Mesmo para achar o tesouro de Atlântida.

Não sei estar na web como desenvolvê-la,

Mas é só lá que você vai compreendê-la.

É desnecessária qualquer busca aguçada,

O google ai está nessa espera avançada.

O DICIONÁRIO dessa primitiva era primária,

Lutou com os “dinossauros” da secundária,

Eles lutaram, mas não alcançaram vitória,

E rapidamente se precipitaram na história;

Ai a burrice musicando em notas sem rima,

Tranco-o numa sala da casa de sua “prima”.

Diz o novel estudante: não existe esgrima,

No novo esquema é preciso só um cuidado,

Apresentar o seu trabalho bem computado.

DICIONÁRIO era um monstro da pré-história.

Queridos, os bons livros aqui não voltarão.

Quanto a mim lhes ensinei de todo coração;

Agora já velho e sem valor, sou descartado,

E com um pequeno salário fui aposentado!

Assim me deram logo a baixa do mercado,

Mas, não perdi o meu espaço no mestrado,

E não espero o dia quando serei lembrado.

 

Assim diz o estudante,

Ainda infante:

Paleógrafo pra quê?

Se já sei escrever,

Letra bonita não interessa!

Não  estou com  nenhuma pressa,

E tenho computador,

Não preciso de professor!

Está bem, mas um pouco de conhecimento,

Será bom para reforçar seus argumentos.

Prosseguindo com a nossa aula da saudade,

Será interessante lembrar particularidades;

O DICIONÁRIO que outrora fora tão apreciado,

Dele ninguém mais se lembra, está execrado.

Seu passado já tão distante ninguém recorda,

E do jeito que as coisas vão jamais ele acorda;

Sua vida começou nas mais longínquas eras,

Vivia lutando com as mais “selvagens feras”,

Sendo a mais perigosa delas a “ignorância”.

Que tinha grande poder de cegar a infância,

Mas, ele nunca desistiu, e a muitos ensinou,

Até o dia que lamentavelmente ele tombou.

Vivendo as muitas dificuldades da era glacial,

Não teve força suficiente contra esse “animal”,

E por um enorme “IGNOSSAURO” foi pisado,

Numa “caixa” de ignorância, foi aprisionado.

Nos seus princípios, as matérias ministradas,

Deveriam ser por seus mestres examinadas.

Eram todas de importância no aprendizado,

Por isso de “pai dos burros” eu fui chamado.

O CADERNO DE CALIGRAFIA cedo foi embora,

Foi “cantar em outra freguesia”, a lá de fora,

O CADERNO DE CÓPIA sem ISO de validade,

Foi substituído pelos livros de imoralidade,

O de MORAL E CÍVICA usado é a “play boy”,

Que a moral do jovem rapidamente destrói.

A “professora” Nete como fogo tudo derrete,

Quero ver o cara que com ela ainda compete;

Ela no dia a dia está cada vez mais presente,

E a rapaziada, da leitura muito mais ausente.

Os jovens têm coisas que são mais atraentes.

A preguiça de ler está operando fortemente;

Se você disser: todos leem bem, você mente;

Uma variedade de coisas mais interessantes,

Esse negócio de ler é cansativo, estressante,

Sentar para ler é coisa velha, é do passado,

É uma visão de velho caduco e ultrapassado.

A antiga aula de leitura era feita em voz alta,

Lamentavelmente foi declarada está em falta.

Agora é a vez das nulidades, e da “burrologia”,

A nova “matéria” implantada pela democracia;

E quase chegando ao final dessa última “aula”,

Meu pedido é: não me ponham numa jaula!!!

 

Assim diz o estudante,

Ainda infante:

Voltar ao “museu”?

Pra quê,

Se puder no vídeo ver!

Paleógrafo pra quê?

Se já sei escrever,

Eu sou um lutador,

E tenho computador,

Não preciso de professor!

Está bem, mas um pouco de conhecimento,

Será bom para reforçar seus argumentos.

O antigo CADERNO DE CALIGRAFIA saiu de cena,

Com saudade lá de longe para ele se acena,

Soterrado num distúrbio das eras antigas,

Está hoje num campo apinhado de urtigas.

Queridos, me aventuro ir mais pouco além,

Mas, não se preocupem eu já vou terminar.

Pensando bem no que tenho para vos falar,

Quero expressar só aquilo que me convém.

LIVRO! Esse som se ouvido é onomatopaico,

A procura paleográfica agora é hibernática,

Esses sons ao “estudante” é muito arcaico,

Quem sabe é culpa da era do gelo, a gelática.

Os sons da voz do ensino é uma real afronta,

Do mestre vocês querem é logo dar a conta.

Todo o acorde que se ouve é tão sismático,

Esse tipo de estudo realmente é cinemático;

Todo som empírico e virtual é som aquático,

Não somente molha, mas, também esfria,

Mas, a festejada e propalada virtualidade,

Se olhada de perto, está cheia de estrias,

E torna-se cada dia verdadeira calamidade.

O método virtual está bem mais acreditado,

Estuda-se para passar e não para aprender,

É a hora do que estiver mais conceituado,

Embora não dê para ninguém compreender.

Quem sabe a educação um dia vai acordar!

Pois a metodologia é o aluno não reprovar;

Para que se mostre e se diga: vai tudo bem,

A foto da burrice aos burocratas não importa,

Pois quem defende o certo é burro também;

E infelizmente a moral há muito está morta!

E se ensina viver essa vida totalmente torta.

Bem, meus alunos, o DICIONÁRIO está morto,

Cabe-nos sepultá-lo num lugar bem seguro,

Eu sugiro-lhes que escolhais o melhor horto,

De preferencia num lugar sombrio e escuro,

E ponham os vigilantes lá por trás do muro,

Para não haver risco de uma ressurreição;

Isso não pode acontecer antes da eleição!

De vocês com muita tristeza me despeço,

E o corredor do futuro eu logo atravesso:

Assina: vosso ex-metre com dedicação!!!

P. S.: não sei quem essa história contou,

Mas, adredemente alguém a inventou!

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